O Monge e o Executivo

Posted by Giuliano Moretti on March 30, 2010

O Monge e o Executivo, de James C. Hunter

O líder deve provocar um questionamento que leve as pessoas a se analisarem para poderem fazer suas escolhas, mudar e crescer.     

Esta é uma obra indispensável para todos aqueles que buscam compreender a verdadeira essência da liderança, desenvolvendo a autoridade competente, mas sem se perder entre os descaminhos do poder.     

Um livro que nos possibilita um grande aprendizado não só a respeito de como e por quê liderar pessoas, equipes, organizações, mas de como viver em harmonia através da valorização dos nossos relacionamentos: pessoais, familiares e  profissionais. Uma história vivida por um indivíduo que experimenta conflitos íntimos relativos à sua forma de gerenciar equipes e de se relacionar com suas pessoas queridas. Reconheci-me nos enfrentamentos vivenciados pelo protagonista. São tantas as passagens do livro que nos engrandecem que se torna quase impossível revelar o seu valor em poucas palavras aqui.     

  

Liderança         

É a habilidade de influenciar pessoas para trabalharem entusiasticamente, visando atingir aos objetivos identificados como sendo para o bem comum.     

Ou seja, a partir daí já podemos nos dar conta de que liderança nada tem a ver com poder. Muitas pessoas ainda não sabem fazer a distinção entre essas duas “entidades”. A liderança é fazer com que as pessoas, a partir de suas motivações positivamente alimentadas, trabalhem para o “bem comum”, ao contrário do que se pode entender por ”poder”. Quem tem poder, exerce o domínio sobre as pessoas para conseguir, muitas vezes, um bem de cunho particular. Quem é líder, ao contrário, conduz pessoas para que atinjam o bem comum. Essa é a primeira lição que podemos extrair do livro.     

A chave da liderança é executar as tarefas enquanto se constroem relacionamentos.     

Liderar é construir relacionamentos pautados na busca de objetivos de todos os envolvidos em quaisquer tarefas ou projetos; fazer acontecer aquilo que todos querem. Isso traz resultados evidentes: lembro-me de mestres na escola e na universidade, tão raros, mas que me motivavam a ponto de sempre querer descobrir mais sobre aquilo que me transmitiam. Por outro lado, a maioria dos chamados “professores”, eram um poço de desmotivações, que só diminuíam minha auto-estima, determinação e confiança sobre as minhas capacidades. Por isso, em minhas aulas e palestras, tento resgatar o que aqueles mestres da liderança sempre me ensinaram: motivar para desenvolver, para construir, para fazer acontecer. Para despertar a curiosidade sobre o desconhecido. O grupo liderado se sente importante, desafiado, interessado, como de fato ele merece se sentir.  No caso de professores ou palestrantes, a melhor recompensa é ver os alunos ou profissionais saírem de uma exposição com aquele sorriso, fruto de uma motivação empolgante para a transformação de cada um deles.  

Segundo Hunter, o líder é uma pessoa que possui uma grande habilidade: a Autoridade. Uma habilidade só passível de existência quando o líder, antes de mais nada, serve os outros e se sacrifica por eles. Não aquele que determina, manda e aguarda passivamente os resultados demandados de seus “escravos”. Muitas relações chefe-subordinado se baseiam nesta última forma de relação, um claro exemplo de imposição depreciativa do poder.

Na relação saudável, com envolvimento da autoridade, é necessário um caráter de liderança fundamentado sob preceitos irrevogáveis da honestidade e da confiabilidade. O líder deve servir de bom modelo, inspirando as pessoas em suas ações. Um exemplo de pessoa que move os sentimentos para o êxtase. Deve ser cuidadoso, ter compromisso, saber escutar. Nada melhor do que nos relacionarmos com alguém que nos escuta de fato e nos dá um retorno efetivo aos nossos clamores. O líder deve manter as pessoas responsáveis, tratá-las com respeito e incentivá-las. E é aí que eu me lembro do contraste entre os grandes mestres e alguns professores com comportamentos diametralmente opostos a eles.  Ou da diferença entre os verdadeiros colegas, que nos pegam na mão para emergirmos juntos, e os falsos colegas que nos utilizam como degraus, pisoteando e empurrando-nos para baixo – às vezes sem que saibamos disso. Detecte a diferença entre estas pessoas e valorize as pessoas incondicionalmente preocupadas com a sua felicidade. 

O desafio de se mudar os hábitos, caráter e natureza requer uma escolha e muito esforço.    

Desafio que o líder abarca com todas as suas forças, mesmo diante de obstáculos gigantes. Logicamente ele é um ser humano e, portanto, longe de ser perfeito. Mas aprende com seus erros e acertos, compreendendo que seus altos e baixos fazem parte da natureza universal, taoística. É, acima de tudo, obstinado pela melhoria de si mesmo e de todos que estão ao seu redor. Tem a força e a motivação para se transformar, aperfeiçoando-se, desembaraçando e compreendendo o maior dos desafios: a mudança de seus próprios hábitos que o deixam estagnado. Aceita perdas e derrotas como lições fundamentais. Também ajuda na superação de vícios e ciclos destrutivos daqueles que são influenciados por ele – equipes, alunos, organizações inteiras. Altruísmo talvez seja a sua qualidade essencial. 

Como consultor organizacional de gestão, percebo em algumas empresas que o corpo funcional está completamente desmotivado, executando cada tarefa como se fosse uma cruz carregada em suas costas. Nada pior do que trabalhar num clima organizacional em que as pessoas estão lá como robôs, infelizes, realizando tarefas repetitivas, assim como Chaplin em Tempos Modernos, sem perspectivas ou desafios para a autovalorização de suas capacidades. Reclamando dos colegas, dos chefes, das tarefas. Isso é reflexo de uma gestão autocentrada, ditatorial, que mantém os colaboradores num suplício constante. Aqui o grande líder tem desafios extraordinários. Seu papel é transpor todos esses obstáculos, catalisar as relações, desenvolver a motivação, para que o grupo atinja uma cultura empresarial de satisfação plena. 

Nossos hábitos são nossos maiores carrascos, acorrentando-nos aos ciclos infinitos de ações que nos levam às diversas perdas. Assim como a cultura organizacional centrada unicamente em números em detrimento das pessoas. 

O líder deve incentivar e dar condições para que as pessoas se tornem o melhor que podem ser. Também tem o dever de fazer com que as pessoas se responsabilizem por suas tarefas, apontando suas deficiências.   

Não basta apenas congratular seus liderados, dando-lhes tapinhas nas costas e parabenizando-os quando completam com sucesso a sua missão em comum. O bom líder é aquele que, com propriedade, também aponta respeitosamente as deficiências de cada um, ajudando-os a superá-las durante suas jornadas. O professor superquerido da galera, que não interpõe dificuldades e não estimula o raciocínio lógico ou a intuição de seus alunos, não é um bom líder, apesar de caro a todos. O bom professor é aquele que é reconhecido pela sua autoridade, dedicação e preocupação com o desenvolvimento de seus pupilos. Sim, ele coloca obstáculos, mas que servirão de escada para o sucesso de cada um dos seus seguidores. Ao final, aponta as falhas com propriedade, que são muito bem aceitas pelos verdadeiros liderados que veem na figura do mestre sua motivação plena.   

Quando o professor, o mestre, o grande líder elogia, sua ação deve ser   

sincera e específica.   

Enfim, dentre tantas outras passagens que nos despertam para a verdadeira liderança, Hunter observa que devemos compreender e transcender um dos nossos maiores problemas: a nossa natureza autocentrada, nosso orgulho, nosso egoísmo. Você que é um autêntico líder  

buscou e descobriu o que é servir.

30Mar

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