O equilíbrio nas pequenas atividades cotidianas
Não pense com a cabeça. Na verdade, não pense nada. Apenas movimente-se… Será difícil, porque o antigo hábito será de começar a pensar. Você terá de ficar alerta – não pensar, mas sentir internamente o que lhe ocorrer na mente.
Osho
Cotidiano
A correria do dia-a-dia nos entorpece e nos imerge num fluxo contínuo de atividades, como se estivéssemos constantemente atrás de alguma coisa que nunca alcançamos. E é assim que todos nós nos sentimos. Quem já não se perguntou: “para que serve esta loucura toda?” E dessa insana velocidade resulta a ansiedade que nos consome lentamente, fazendo com que fiquemos num estado de tensão constante.
De fato, esta correria não serve para muita coisa. O problema não está nas atividades que realizamos, mas como as encaramos no momento em que as realizamos. Enquanto escovamos os dentes, tomamos um banho, nos vestimos, cozinhamos, lavamos louça ou simplesmente aguardamos ser atendidos numa fila de banco, estamos sempre com a mente matraqueando em nossos ouvidos virtuais. É uma conversa incessante, uma multidão dentro de nós, geralmente fluindo de coisa alguma para lugar nenhum. Também ficamos projetando nossa próxima tarefa diária, muito impacientes e esperando terminar aquilo que estamos fazendo no momento presente. Cada mínima atividade diária, como as citadas acima, parece não ter importância e precisa ser finalizada o quanto antes, para saltarmos na agenda daquilo que consideramos importante. O problema é que quando chegamos ao supostamente importante, temos o mesmo comportamento: finalizá-lo o quanto antes, pois a satisfação esperada para este momento já pulou para o próximo.
Portanto, projetamos constantemente nossa satisfação plena no futuro, seja ele daqui a 5 minutos, seja ele no mês ou no ano seguinte. Um futuro que, obviamente, nunca vai chegar.
A importância da jornada diária
A principal questão da qual nos esquecemos é a importância de cada passo que damos durante nossa jornada cotidiana. Como estamos sempre com a cabeça fervilhando atrás daquilo que nem sabemos direito se é o que realmente queremos para nós, acabamos por não prestar atenção nas atividades diárias que apenas parecem sem importância. Digo que apenas parecem, porque elas realmente são importantes, mesmo aquelas atividades rotineiras como arrumar a cama, a casa, comer, alimentar o animal de estimação, regar as plantas, cuidar do jardim, entre tantas outras onde podemos estimular a nossa criatividade.
Uma das maneiras mais interessantes e eficazes de se colocar a tão sonhada meditação em prática, sem ter de recorrer às diversas técnicas de redução do desperdício de energia mental – que por si sós já nos desgastam com o fardo de mais um compromisso -, é a consciência plena e focada naquela atividade que se realiza no momento, mesmo que ela pareça sem importância nenhuma, como uma simples caminhada no parque. Há tempos venho adotando esta simples técnica e obtendo resultados bastante satisfatórios em termos de pacificação do fluxo mental desordenado, encontrando um porto seguro, um ponto de equilíbrio, através da consciência em cada uma das tarefas diárias que realizo.
A meditação
Vou ilustrar o exercício que você poderá aplicar agora mesmo, com os pequenos exemplos anteriormente citados.
Antigamente eu acreditava que precisava cumprir com todas as minhas atividades cotidianas de forma rápida antes de me dirigir ao trabalho, gerando uma ansiedade que me prejudicava bastante. E a ansiedade me colocava num estado de tensão, gerando um desconforto e insatisfação permanentes. Esta ansiedade passou a diminuir sistematicamente à medida que passei a ter consciência do momento presente, eliminando minha preocupação com o tic-tac do relógio. Em primeiro lugar, passei a exercitar minha percepção de que cada uma das minhas atividades diárias, por mais simples que fossem, eram essenciais para que meus objetivos ao longo do dia fossem atingidos. Portanto, é preciso que você entenda que, apesar de parecer algo que não produz resultados para seus objetivos, prestar atenção exclusivamente naquela simples atividade, focando sua energia mental – evitando outras interferências – é fundamental para a diminuição da sua ansiedade.
Preparar o seu próprio café da manhã, abrindo a geladeira, escolhendo seu alimento, preparando-o e desfrutando-o com muita tranquilidade, mantendo a atenção em cada um dos seus gestos, em cada mastigação, no cheiro, na textura e no sabor do seu alimento, absorvendo todos os aspectos desta atividade sem pressa alguma, faz com que você comece a obter uma satisfação e a valorizar mais aquele momento que é essencial para você. Minutos únicos, preciosos, que não voltam nunca mais, nos quais você pode aprender a perceber o essencial.
Numa caminhada é possível tentar deixar a conversa mental de lado, focando sua atenção nos seus passos, nos seus movimentos, no toque dos seus pés no caminho, na sua inspiração e expiração, tomando maior consciência de seu corpo como um todo orgânico e estimulando a percepção da sua unidade corporal e a interação com os outros elementos que o circundam.
Um outro exemplo de atividade na qual você poderá se iniciar nesta forma de meditação, é a de lavar a louça. Aquilo que parece entediante, uma obrigação, pode se tornar um momento de real encontro consigo mesmo, em que você busca a perfeição nos mínimos detalhes. Tome consciência, preste atenção, e execute a tarefa com esmero, abstraindo a falsa sensação de “obrigação”, observando os detalhes do procedimento, refletindo sobre a importância de se fazê-la bem feita e como a matéria interage no processo de limpeza. E o mais importante: não pense nas suas próximas tarefas. Mantenha o foco em cada gesto, em cada ação realizada no momento presente.
Para finalizar, mais uma ótima oportunidade para se manter calmo e tranquilo: a odiada fila de banco. Sim, acredite. De tanta impaciência, antigamente eu quase me arrancava os cabelos quando tinha que ficar mais do que cinco minutos ali de pé, esperando para ser atendido. Já começava a reclamar em voz alta, exigir os meus direitos de consumidor, e aquilo tudo que você já conhece. Porém, quando comecei a aplicar esta simples técnica de meditação, passei a rir de mim mesmo relembrando como agia no passado. E o mais engraçado é que o único realmente prejudicado com toda aquela ansiedade e tensão era eu mesmo. Já ficava mal humorado pelo resto do dia, indignado com as injustiças comuns que acontecem com todos os brasileiros. De nada adiantava. Só me prejudicava.
Quando estou numa fila, seja do banco, seja do caixa do supermercado em que há um ser despreocupado com o tempo dos outros na minha frente, começo a observar minhas reações internas, a perceber a impaciência querendo aflorar. Mas com a própria consciência do que acontece dentro de mim, vejo que o primeiro passo para controlar as reações prejudiciais já foi dado. E lanço um desafio a mim mesmo: “Como posso ser mentalmente criativo nesta fila?”. Geralmente me surpreendo com minhas próprias respostas.
Substitua conscientemente a sua sensação de “perda de tempo” por uma sensação de “oportunidade de crescimento interior”, observando ativamente as suas próprias reações interiores.
Dificuldades normais
Após anos de insconsciência, realmente é difícil fazer com que a mente silencie, acalme, fique mais tranquila. Mas com a prática diária, internalizada em todas as suas ações, em casa ou no trabalho, os resultados começam a sugir e quando você se der conta, estará muito mais satisfeito com seu modo de pensar e viver. A ansiedade diminui e as suas consequências também, na mesma proporção.
Não adie sua possibilidade de se transformar agora numa pessoa consciente de si mesmo. Ao fechar este post, tome consciência plena das suas próximas atividades. Hoje, ao se deitar, perceba o seu corpo no merecido descanso. Amanhã, ao se levantar da cama, mantenha esta meditação, focando em cada passo essencial, pois tudo o que você precisa fazer é importante para você e para quem você ama. Se esquecer, retome o exercício assim que relembrar. Com o tempo a sua percepção de si será automática. A ansiedade e a tensão serão bem menores.