Mercado, Competição, Trabalho e… Ócio!

Posted by Giuliano Moretti on March 22, 2010

Tempo é dinheiro. (???)

Mercado

A velocidade do mercado é resultado da competitividade entre empresas e profissionais, sempre inovando para se manterem à frente de seus concorrentes. Esta competição se sustenta na necessidade constante que temos pelo novo, diferenciado e moderno… desprezando o obsoleto. É a roda da economia:  aquilo que é novidade nos desperta desejos e paixões e o mercado sabe muito bem disso. Tanto é que não existem mais “carros usados” neste planeta. Apenas “semi-novos”. A novidade é a força motriz que move o modelo de competição mercadológica, impulsionando vendas e negócios. Por um lado é ótimo: sempre estamos evoluindo, em busca de novas  experiências, conhecimentos, satisfações. Por outro, vivemos nesta maratona de ter – como consumidores – e atuar – como profissionais – buscando garantir nosso rótulo social através de nossas conquistas materiais e poder funcional, inovador, que mantém nossos empregos valorizados e nossos concorrentes para trás. Nossa vida parece que gira em torno disso. Se pensarmos em piscar, perdemos o bonde. Da máxima acima, portanto, só podemos concluir que se desperdiçarmos nosso tempo, jogamos dinheiro no lixo. Uma citação que já tem, na minha opinião, seu prazo de validade vencido.

O modelo “tempo é dinheiro” nos desperta uma necessidade constante de estarmos sempre ativos em busca da conquista financeira. Quando nos sobra um tempo, temos a impressão de que algo está errado, de que estamos perdendo. Experimente ficar parado, completamente parado, sem pensar, sem assistir TV, nem mesmo ler algo, sem dormir, por apenas cinco minutos. Está bem, tente dois minutos. Um. Nossa inércia não nos permite isso. É praticamente impossível cessarmos por completo devido aos estímulos sofridos pela competição diária. Sentimos uma necessidade de arranjar logo algo de “produtivo” para fazer – entenda-se potencializar algum retorno de nossas ações -; ficar parado é coisa de defunto ou de vagabundo. Não é culpa nossa pensar assim, afinal, aprendemos que “tempo é dinheiro”. O próprio dicionário nos ensina que o ócio é ruim: “falta de disposição, pressa ou empenho, indolência, moleza”.

Para alguns a agitação do mercado pode servir de adrenalina para mantê-los funcionando. Nada contra. Confesso que já fiz parte do modelo. Não mais. Venho aprendendo com diversas mentes iluminadas o valor do trabalho menos ensandecido, mais ritmado e adaptado ao meu bem-estar. E tem dado muito certo. Maior tranquilidade na vida profissional, com tomadas de decisão mais ponderadas e acertadas. Mestres que vêm me ensinando isso ao longo dos últimos tempos: o italiano Domenico De Masi (autor do livro “O Ócio Criativo“) e o canadense Carl Honoré (In Praise of Slowness). Ainda pretendo relatar aqui as minhas ótimas impressões sobre as obras desses magníficos pensadores.

Cheguei a um ponto em que tive que me perguntar: está valendo a pena essa competição social e econômica? Essa correria que não me permite não fazer absolutamente nada num determinado momento? Quais são os reflexos para o meu bem-estar? Para minha saúde e qualidade de vida?

O fim do trabalho das 08 às 17h

Percebi que o fluxo das massas na velocidade do mercado competitivo, do qual eu fazia parte, não me proporcionava uma paz de espírito. Ficava preso ao ciclo vicioso do trabalhar para consumir e trabalhar mais para consumir mais, unicamente. Tudo errado, não é? Ou para “garantir um futuro” lá longe. E deixava passar despercebido o essencial para mim, os valores ocultos, mas fundamentais da vida.

Diante dessa percepção, coloquei-me um desafio pessoal: aumentar minha produtividade, fazendo do trabalho um prazer crescente ao longo do tempo, focado, criativo e sem as distrações que desmantelam a minha produtividade. Primando sempre pelos períodos ociosos para me proporcionar oportunidades não atreladas à vida profissional, ou, simplesmente, para eu não fazer nada. E constatei: minha produtividade aumentou significativamente porque passei a valorizar meus momentos fora do trabalho. Agora, enquanto eu trabalho, estabeleço meu foco diante dos objetivos, intensifico minha capacidade de inovação, relevando o prazer de estar realizando meu ofício pelo bem-estar da sociedade e o meu próprio. Enquanto ocioso, alimento a criação dos valores intangíveis, ampliando minhas energias, prazer e bem-estar.

E como resposta a este meu desafio, deixei de trabalhar como funcionário porque não acredito que meu tempo possa ser comercializado das 08h às 17h. Optei por vender minha produtividade ao invés do meu tempo de vida.  Descobri que quando vendo minha produtividade, sobra-me mais tempo para momentos de engrandecimento interior. Nas empresas em que eu tinha que vender meu tempo de vida, competindo e sempre tentando demonstrar competência de ponta, não me sentia bem ao finalizar uma determinada tarefa, cumprir com as metas e ainda ter que ficar fingindo trabalhar até o gongo tocar. Ou ver ideias possivelmente inovadoras serem atropeladas pela ignorância burocrática coletiva. Ou ficar arranjando coisas para fazer, pelo simples fato de não poder demonstrar ociosidade. Nesses casos, sentia-me como um boi no pasto, guiado por um açoite.

Tente abrir um bom livro na sua mesa de trabalho durante o expediente. Ou melhor, não faça isso! É possível que você perca o emprego.

Sou o tipo de indivíduo que prima pela liberdade de ações, da criatividade, da produtividade, seja no trabalho, seja na vida pessoal. Passei a encarar o trabalho não como tripalium – instrumento de tortura que “deu origem à série” -, mas como uma forma de me realizar. Optei por ser empresário, que facilitou muito esta realização. E, é claro, também passei a disseminar essas ideias de liberdade produtiva por entre as pessoas que colaboram com minha empresa. Desprezo o “teatro funcional para inglês ver”. Não está sendo produtivo? Vá para casa ou para uma boa caminhada e recarregue suas baterias! Eu faço as  horas serem produtivas à minha maneira, criando pequenos momentos de ócio durante o expediente para me recarregar: correr no parque, tomar um sorvete, ler um livro, tirar um bom cochilo ou ir ao cinema com minha amada mulher. Isso pode acontecer a qualquer hora do dia: uma terça-feira às 14h25, por exemplo.

Estas ações podem até ter determinado um crescimento mais moroso, cadenciado, de minha carreira. Mas me permitiram – e assim continuam - desfrutar de todos os momentos, tanto no trabalho realizador, como na esfera pessoal: às sextas-feiras estou feliz por ter um final de semana pela frente. Porém, aos domingos, já estou louco de vontade de trabalhar – baterias recarregadas. E assim vou caminhando, com muito mais motivações do que os eventuais desânimos.

É lógico que existem empresas em que se mede o funcionário pela sua produtividade e não pela sua atuação - de ator mesmo. Microsoft, Google, 3M, Toyota, etc. Para estas empresas, o que importa é que você faça bem feito. Se você está pelado em frente ao seu computador – desde que na sua casa, é claro -, comendo um Big Mac, assistindo a um filme ou lendo um livro enquanto executa suas tarefas rumo às metas estabelecidas pela empresa, não importa. O que importa é que você faça seu trabalho bem-feito, com amor, satisfeito, apresentando os resultados esperados. Muitos trabalhos hoje podem ser realizados de nossas próprias casas. Santa tecnologia!

A valorização do ócio

Logicamente que nem todos – e por uma questão de sobrevivência no curto prazo – têm a oportunidade de fazer escolhas como a minha, ou trabalhar numa empresa de vanguarda como as citadas acima, uma vez que vivemos numa sociedade incerta sob uma socioeconomia injusta. E quem acaba pagando o pato, sem poder apreciar os resultados de uma boa escolha, são aqueles que ainda não tiveram a oportunidade de fazer escolhas profissionais e determinar seus próprios estilos de vida. Talvez sob uma economia mais solidária isto venha acontecer. E, também, há profissões que não permitem o trabalho remoto, ou uma pausa no meio do expediente. Mas se você tem o poder da escolha, recomendo escolher um posto que o valorize como profissional e como pessoa, permitindo sua liberdade para “trabalhar feliz” e dar o melhor de si, com muito prazer!

Não prezo o ócio preguiçoso, aquele do dicionário. Falo do trabalho produtivo e do ócio que nos recarrega, nos motiva, nos faz descobrir paixões em todas as vertentes de nossa vida, incluindo o próprio trabalho. Devemos, sim, valorizar nossos momentos de ócio descobrindo atividades que ”ventilam” nossas ideias e nos proporcionam momentos de prazer pela arte, cultura, esporte, ciência, estética, gastronomia, família…

Se você ainda não pode fazer escolhas por um trabalho mais humano, crie oportunidades novas na sua vida profissional. Saia deste marasmo cíclico. Construa suas próprias opções. E, uma vez de posse delas, poderá refletir sobre o que é melhor para você. Vamos fazer escolhas para o momento presente, valorizando nossos momentos livres. Planejando, sem paranóia, o nosso futuro. Afinal, vivendo lá longe não aproveitamos a vida que escorre por entre nossos dedos, tornando-se por si só um peso árduo de se carregar. Vivendo no presente, aproveitando cada segundo de produtividade e sucesso profissional acompanhados do ócio construtivo, garantimos uma satisfação e qualidade de vida muito mais aprazíveis neste exato momento. E derrubamos o falacioso ditado que nos ensina que “tempo é dinheiro”.

Categories: Reflexões
22Mar